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24 agosto 2014

Swing Copters (como Flappy Bird, só que ruim)

Tempos atrás falei sobre o Flappy Bird, um jogo tão divertido quanto dificil. O jogo fez tanto sucesso e teve tanta repercussão que seu criador (Dong Nguyen, do .GEARS Studio) aparentemente não conseguiu suportar a pressão do sucesso e tirou o jogo do ar. Detalhe: a estimativa de renda que o jogo provia a ele na época era de 50 mil dólares diários.

Passados alguns meses, o .GEARS Studio lançou mais um jogo, o Swing Copters. O visual e a jogabilidade são muito semelhantes ao Flappy Bird. A grande diferença é que o jogo é absurdamente mais difícil. Pra você ter uma ideia, cronometrei algumas partidas e calculei o tempo médio de jogo: 7.5 segundos. Joguei algumas dezenas de partidas e não consegui fazer mais que um ponto.

A impressão que dá é que Dong Nguyen, criador do jogo, quer rir da nossa cara. Flappy Bird é difícil, mas divertido. Swing Copters é impossível e está longe de ser divertido. Acho que só fique muito tempo jogando porque me senti desafiado e frustrado a cada "game over" que aparecia na tela.


A grande sacada do criador, no entanto, é a forma de capitalizar o aplicativo. A cada partida, um anúncio é mostrado na tela. E o desenvolver recebe uns trocados a cada vez que um anúncio é visualizado e/ou acessado. E como a cada 7,5 segundos aparece uma nova propaganda, isso acaba gerando uma renda enorme.

Até o momento, mais de 500 mil usuários já tinham baixado o aplicativo para Android e mais um tanto para iOS. Consequentemente, alguns milhões de anúncios foram exibidos. Enquanto isso, tentamos jogar um jogo impossível e Nguyen vai ficando cada vez mais rico.

Baixe o Swing Copters para Android aqui.

Baixe o Swing Copters para iOS aqui.

[UPDATE: 28/08/2014]
Lançaram uma atualização para o jogo, que agora está jogável. E ficou divertido, então retiro boa parte do que eu disse acima. Mas ainda não passei dos quinze pontos.

22 agosto 2014

Antes de publicar qualquer coisa, é melhor analisar os dados. E é feio manipulá-los.

(Esse recado é pra você, Folha de São Paulo).

Embora eu tenha uma especialização em engenharia aeronáutica e um mestrado em engenharia pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), nunca falei sobre o mundo da aviação aqui no blog. Mas hoje achei que poderia prestar um serviço à sociedade.

A quantidade de bobagem que vejo a imprensa publicar é diretamente proporcional ao meu nível de conhecimento sobre o assunto que está sendo tratado. Hoje quando vi a notícia "Quase 70% dos acidentes aéreos têm apenas três causas" na Folha de São Paulo fiquei bastante incomodado. Toda pessoa minimamente envolvida com aviação sabe que qualquer acidente da avião só acontece quando ocorre uma combinação de inúmeros fatores  - nunca por apenas um motivo.
Consultei então a base do CENIPA (Centro de Investigação e e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, ligado ao Ministério da Defesa) supostamente consultada na reportagem e filtrei por "acidente" no campo "classificação". Apareceram 625 ocorrências . A reportagem cita 617, imagino que as oito mais recentes foram inseridas posteriormente.

Acontece que as tais "causas" citadas pela reportagem da Folha de São Paulo na verdade se referem ao campo "Tipo de Ocorrência". A manchete correta seria algo do tipo "Quase 70%  dos acidentes reportados no Brasil se referem a 3 tipos de ocorrência". Falar em "tipo de ocorrência" é muito diferente de falar de "causa de acidente". 

Por exemplo: um dos tipos de ocorrência citados é o "baixo nível de combustível". Os motivos que levaram ao baixo nível de combustível é que seriam as causas (no plural, lembrem-se disso). Numa situação hipotética, imagine que os instrumentos que informam o nível de combustível podem ter falhado, as condições de voo podem ter levado à uma mudança de rota que fez com que o avião voasse por muito mais tempo, e o aeroporto estava congestionado, atrasando o pouso da aeronave. É bom deixar claro que a ocorrência dessas três situações simultaneamente está aqui apenas para ilustrar que um acidente aeronático só ocorre quando há várias causas (muito mais que três).

Em cada linha da tabela é possível abrir os relatórios de investigação e, aí sim, procurar pelas causas (normalmente múltiplas) de cada acidente. (Mas cada relatório leva um tempo infinito pra ser aberto). As supostas causas mencionadas pela reportagem da Folha ("Perda de controle", "Falha do motor" e "Colisão em voo") são listadas na base de dados do CENIPA como "Tipo de ocorrência".

Essa verificação que fiz não levou 10 minutos. Não posso afirmar que a redação da Folha manipulou os dados para gerar uma reportagem sensacionalista ou que simplesmente a redatora foi amadora (e o editor incapaz de vetar uma matéria como essa). De qualquer forma, fico preocupado ao ver reportagens como essa prestando um desserviço à população. Em determinado momento do dia de hoje, essa era a matéria mais lida do site. Olha só quanta gente tendo acesso à informação distorcida! Um jornal que devia ser uma fonte de informação confiável ajuda a disseminar conceitos errados que, de certa forma, fortalecem o medo que as pessoas tem de voar (e não deveria existir, afinal o avião é, estatisticamente, a forma mais segura de se viajar - já dizia Superman).

O que me deixa mais triste é que, quando conheço o assunto, eu até consigo analisar criticamente o que estou lendo. Mas imagine só a quantidade de bobagem que a gente lê na grande mídia por desconhecimento! E se até os grandes jornais erram (ou manipulam, sei lá), pense só na quantidade de bobagem que você lê na sua timeline do Facebook!