Pular para o conteúdo principal

Não vamos ser corruptos. Não vamos comprar ingressos de cambistas. Não vamos nos tornar cambistas.


Na última semana procurei por ingressos para o show do Maroon 5 em Belo Horizonte e não encontrei nenhuma pessoa honesta vendendo. Pra muita gente parece normal cobrar um pouco mais que o preço de venda para repassar um ingresso de um evento que desistiu de ir, mas não é. Além de ser crime contra a economia popular é uma bruta sacanagem com quem não conseguiu comprar os ingressos com antecedência.

Não compro ingressos de cambistas de forma alguma. Nem se estiver mais barato que na bilheteria. E uma pessoa que está vendendo um único ingresso, se estiver tendo lucro, pra mim também é cambista.

É muito incoerente o fato de que, em um país que cada vez mais se discute sobre a ética e corrupção na esfera pública, as pessoas tratem com naturalidade comprarem de cambistas e se tornarem um deles.

Há pouco menos de dois anos, publiquei um texto no Move That Jukebox sobre o assunto, e acho que seu assunto ainda hoje é muito atual. Confira a reprodução abaixo:

Compro e vendo ingresso. Compro e vendo ingresso.
(publicado originalmente em 08/08/2014, no Move That Jukebox)

Imagine essa situação: aquela banda da qual você tanto gosta, mas que nunca veio ao Brasil, finalmente confirma um show na sua cidade, mas os ingressos se esgotam quase que instantaneamente – e você fica sem o seu. A primeira sensação é de tristeza, pois a banda realmente mora no seu coração e vê-la ao vivo seria a realização de um sonho antigo.

No dia do show você vai até a porta do local e encontra inúmeros cambistas vendendo o ingresso por um valor equivalente ao dobro do preço da bilheteria. Você vai realizar o seu sonho e comprar o desejado ingresso da mão de um cambista, pelo dobro do preço pelo qual você pagaria se eles não tivessem se esgotado?


Agora vamos pensar em uma variação da situação anterior: agora os ingressos não se esgotaram, e você facilmente conseguirá comprá-los na bilheteria no dia do evento.

Só que ao chegar ao local do show, você se vê circundado por cambistas vendendo as entradas pela metade do preço da bilheteria. Como os ingressos não se esgotaram dessa vez, eles querem se livrar deles para o prejuízo ser menor. E aí, você compra o ingresso com desconto dos cambistas ou paga o preço total na bilheteria?

Por mais que pareçam situações quase que inversas, a minha postura em ambos os casos seria a mesma: não comprar do cambista, mesmo que isso signifique que eu não veja minha banda favorita, ou que economize menos dinheiro do que poderia. E isso não é falta de amor próprio. Comprando de um cambista, eu estaria sendo conivente com uma prática ilegal que prejudica muita gente ao troco do lucro de meia dúzia de pessoas.


Pense na situação dos ingressos esgotados: cambistas compram boa parte dos ingressos disponíveis, impedindo várias pessoas de adquirirem os seus legalmente. Para cada ingresso na mão de um cambista existe uma pessoa que queria fazer a coisa certa e foi impedida. Ao comprar de um cambista, essas mesmas pessoas acabam pagando um valor acima do preço do ingresso para o lucro dos (em parte) responsáveis pelo esgotamento dos ingressos. É meio contraditório você deliberadamente dar dinheiro para alguém que intencionalmente te prejudicou.

Já a situação do cambista tendo que vender seus ingressos com prejuízo, em um primeiro momento pode até parecer interessante, só que ao comprar um ingresso nessa situação, você fará com que o cambista perca um pouco menos de dinheiro do que perderia, quando o ideal era que ele perdesse tudo – afinal ele agiu com a intenção de tirar vantagem sobre os outros. De certa forma, é um incentivo para que ele continue com essa prática. E não se esqueça, isso também é ilegal. E veja só: se ninguém comprar ingressos de cambistas, eles não terão para quem vendê-los. Sem mercado, eles provavelmente deixariam de existir.

Parece meio utópico pensar em um mundo em que não haja cambistas – eles estão presentes em todo tipo de evento, em todo tipo de país. O que procuro é fazer a minha parte, e convencer as pessoas a fazer o que eu considero correto. E se você chegou ao final desse texto decidido a nunca mais comprar um ingresso de cambista, o meu objetivo terá sido alcançado.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Pista premium, essa aberração dos shows no Brasil

O cantor inglês Ed Sheeran tocou ontem em Belo Horizonte em uma apresentação cheia de altos e baixos. Um problema que chamou a atenção foi o tamanho da semi-deserta pista premium. A impressão que dava é que nem um terço do espaço dedicado ao pessoal que pagou o dobro do preço estava ocupado. A foto abaixo tirada durante a apresentação do cantor dá um noção do vácuo existente.


A organização foi no mínimo incompetente para dimensionar o espaço. Fica feio e desagradável tanto para o público quanto para o cantor.

Reproduzo a seguir um texto que escrevi em 2014 para o Move That Jukebox onde falo um pouco sobre esse costume indigesto dos promotores de shows no Brasil.

******
O abismo entre a pista comum e a pista premium

A simples existência de uma pista premium em um show é o suficiente para prejudicar (e muito) a experiência de quem não está nela. Acho natural cobrar valores diferentes para lugares diferentes, mas desde que o lugar esteja marcado. É justo que a cadeira da primeira fila ten…

O que acontece se um vampiro morder um zumbi? E se um zumbi morder um vampiro?

Já parou pra pensar no que acontece quando um vampiro morde um zumbi? Será que o zumbi vira um vampiro? E quando a situação é a inversa? Será que uma mordida de zumbi transforma o ser de dentes pontudos?
Tanto vampiros quanto zumbis são seres que podem ser classificados como "mortos-vivos". Isso significa que, apesar deles conseguirem executar certas ações que usualmente apenas os seres vivos são capazes, eles estão mortos. Na prática, se um vampiro morder um zumbi ou vice-versa não acontece nada. 

A razão desse efeito (ou da ausência de efeito) é que os zumbis mordem apenas seres vivos. Por esse motivo, eles não mordem outros zumbis, vampiros e múmias, por exemplo.
Por outro lado, os vampiros precisam se alimentar de sangue de seres vivos. E, embora os zumbis tenham sangue circulando em suas veias, eles já estão mortos.
Assim sendo, se um vampiro cruzar com um zumbi, certamente eles não se atacarão. E mesmo supondo que seja um vampiro doidão que queira morder um ser um put…

Quanta inovação pode conter um chinelo?

Não, eu não vou falar das Havaianas. A história da fabricante de chinelos brasileira que coloriu seus chinelos (que eram) feiosos e passou a ser um ícone da moda mundial já foi suficientemente explorada como exemplo de inovação no mundo dos negócios.

Eu vou falar é da Florine Chinelos, marca bem menor, mas com um produto interessantíssimo e um potencial de crescimento tremendo. Conheci a história da empresa em uma palestra de Alexandre Robazza, do SEBRAE SP.


Parece bucha de banho, né? Mas na verdade é o mesmo material utilizado para fazer tapetes. Aliás, o chinelo foi criado numa fábrica de tapetes.
Incomodado com as tiras que sobravam na fabricação dos tapetes, o criador do produto Carlos Gasparini, buscava alguma utilidade para os retalhos, até que um dia teve a ideia de fazer um chinelo. Após várias tentativas e com o protótipo em mãos, foi procurar o SEBRAE.
Com o apoio do SEBRAE, patenteou o produto, registrou a marca e começou a produção. Claro que não foi da noite para o dia, h…