Pular para o conteúdo principal

Pista premium, essa aberração dos shows no Brasil

O cantor inglês Ed Sheeran tocou ontem em Belo Horizonte em uma apresentação cheia de altos e baixos. Um problema que chamou a atenção foi o tamanho da semi-deserta pista premium. A impressão que dava é que nem um terço do espaço dedicado ao pessoal que pagou o dobro do preço estava ocupado. A foto abaixo tirada durante a apresentação do cantor dá um noção do vácuo existente.


A organização foi no mínimo incompetente para dimensionar o espaço. Fica feio e desagradável tanto para o público quanto para o cantor.

Reproduzo a seguir um texto que escrevi em 2014 para o Move That Jukebox onde falo um pouco sobre esse costume indigesto dos promotores de shows no Brasil.

******

O abismo entre a pista comum e a pista premium

A simples existência de uma pista premium em um show é o suficiente para prejudicar (e muito) a experiência de quem não está nela. Acho natural cobrar valores diferentes para lugares diferentes, mas desde que o lugar esteja marcado. É justo que a cadeira da primeira fila tenha um preço mais alto que a da última. Isso acontece em shows, teatros, esportes e todo tipo de atração às quais as pessoas assistem sentados.

Mas a pista premium é uma aberração. Na pista de um show, as pessoas andam e se movimentam, e se acumulam em uma densidade demográfica inversamente proporcional à distância do palco. Como a distribuição do público não é uniforme, sobra muito espaço no fundo da pista. Um abismo. Depois dessa lacuna, geralmente fica boa parte dos maiores fãs da banda em questão. Muitos deles podem ter dormido na fila ou chegaram bem cedo justamente para garantir um lugar lá na frente. Só que entre o público e o palco, por vezes rola um enorme espaço vazio, povoado por meia dúzias de pessoas que podem nem estar tão interessadas assim pelo show, mas que garantiram o ingresso da pista premium sabe-se lá por que. Anti-clímax total. Mas, obviamente, isso não é regra, e há também pistas VIPs lotadas de verdadeiros fãs do artista.

Já fiquei colado na grade da pista comum, separado do palco por uma barreira de “nada”, e é desolador. Imagino que deve ser muito frustrante para as bandas ver esses buracos assim. Pensando como empresário, não há muito o que reclamar. O investimento para a criação de uma pista premium é só na barreira que a divide do “povão” e nos seguranças que vão ficar no meio do caminho. Considerando que o preço do ingresso é em média o dobro da pista comum, isso aumenta consideravelmente o lucro. E se tem gente que paga, por que não vender esses ingressos?


E fica até difícil falar em boicote. Como vou dizer para um super fã que ele deve perder a oportunidade (talvez única) de ver sua banda favorita de pertinho? Eu tenho uma lista de bandas (que conto nos dedos de uma mão) pelas quais eu poderia pagar um ingresso premium. Felizmente, não precisei fazer isso ainda. E depois de muito pensar, acho que cheguei a uma solução que ficaria no meio termo entre a necessidade de lucro do empresário e a possibilidade de compra de um privilégio por fãs mais devotos (ou de maior poder aquisitivo): em shows com pista, o ingresso de pista premium poderia dar direito à preferência na entrada. O portão abriria mais cedo para quem pagou mais caro e um tempo depois para o restante do público. Isso acabaria com o vácuo entre as pistas ao mesmo tempo que daria a oportunidade aos fãs que não tem tanto dinheiro disponível de chegar mais perto do palco. É claro que não seria tão simples, e há chances desse esquema dar errado, ou não ser de grande efetividade. Mas, se alguma produtora quiser testar essa ideia, fica aí a dica. Nem vou cobrar royalties.

Até lá, no entanto, continuo meu boicote pessoal às pistas premium, e na torcida para que minhas bandas favoritas não cobrem o o dobro para que eu possar chegar mais perto delas.

******

Nota: a ideia que sugeri ao final do texto acabou sendo implementada no último show que o Muse fez no Brasil, em 2015. Quem pagasse uma taxa extra poderia entrar uma hora antes dos portões abrirem para o público geral. Mais justo que a pista premium na minha opinião. Entretanto, a ideia não deve ter funcionado do ponto de vista de negócios, pois não vi fazerem isso em nenhum outro show depois desse.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Os patos de Patópolis e o Pato Fu

Recentemente, enquanto lia uma revista do Ducktales (os caçadores de aventuras, todos eles são grandes figuras), me deparei com um quadrinho onde o Capitão Bóing fazia uma ameaça aos seus adversários invocando o poder do Pato Fu (ou seja, o kung fu dos patos). Achei a referência divertida, postei no Twitter, a própria banda retweetou a publicação, mas achei que era um caso isolado.


Pra quem conhece a história da banda, o uso desses termos faz todo sentido. O nome Pato Fu foi inspirado em uma tira do Garfield onde ele lutava Gato Fu.


Normalmente esse tipo de referência é chamado de "easter egg", termo em inglês para ovo de páscoa. É uma surpresa escondida na narrativa (seja ela em quadrinhos, prosa, cinema etc) que não tem influência na história. Assim, quem conhece a referência acha interessante, se diverte um pouco mais e pra quem não conhece a vida continua como se nada tivesse acontecido.

Algumas semanas depois, lendo o volume "A Cidade Fantasma", da coleção do…

O custo de um carro popular é muito maior do que você pensa (uma história real)

Nunca tive o sonho de comprar um carro, até mesmo porque nem gosto de dirigir fora do videogame. E como até pouco tempo atrás eu tinha transporte da empresa para o trabalho, comprar um carro seria um capricho muito caro e desnecessário. Até que voltei para Belo Horizonte e senti a necessidade de comprar um automóvel para ter um pouco mais de conforto. Comprei meu primeiro carro em maio de 2014.

Em 30 meses e pouco mais de 43.000 km rodados, o meu carro gerou um custo mensal de R$1407,02.


Esse valor não inclui o valor que paguei no automóvel, ele refere-se apenas a gastos realizados que não poderão ser repostos com a venda do carro. Pode até parecer um valor muito alto, mas ele foi rigorosamente calculado e pode surpreender os desavisados.

E veja só, meu carro não é extravagante: é um Volkswagen up! com a maioria dos opcionais. Tem motor 1.0, consome muito pouco combustível e a manutenção é relativamente barata. É que mesmo um carro popular pode sair muito caro.

R$27.044,14 com despesas …

A regra básica para verificar se algo é verdade na internet

Um dia eu ainda quero compreender o que se passa na cabeça de alguém que inventa um boato e espalha pelo mundo. Será que o objetivo é apenas ser um agente do caos ou simplesmente rir das pessoas que acreditam. Só sei que não é de hoje que essas coisas existem (ou você realmente acredita que a Xuxa fez um pacto com o demônio e o Fofão tinha um punhal dentro do seu boneco?), só sei que a internet amplificou o alcance e a velocidade de todo tipo de boatos.

Por muitas vezes atuei (e continuo atuando) como um desmascarador de mensagens falsas entre os membros da minha família e amigos mais próximos, mas não adianta: se antes as bobagens eram espalhadas via e-mail, a diferença é que agora elas chegam via WhatsApp. Tento fazer o papel de mensageiro da verdade, mas é difícil ter sucesso...

Não espalho nada que eu não tenha verificado ou não confie na fonte. Se já espalhei alguma bobagem, pode ter certeza que foi na ignorância e que sinto vergonha por isso. Hoje em dia é muito fácil procurar …