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Um carro autônomo atropelou um pedestre. Acidentes acontecem e vão continuar acontecendo (mas cada vez menos)


No começo da semana, aconteceu o primeiro acidente envolvendo um carro autônomo e um pedestre que resultou em morte. Um carro Volvo XC90 estava em modo autônomo e não identificou uma mulher que atravessava um cruzamento fora das faixas de pedestre. Foi o primeiro e certamente não será o único - mas devemos utilizar esse aprendizado para diminuir cada vez mais a taxa de acidentes.

Infelizmente, acidentes acontecem. O que podemos fazer é projetar veículos cada vez mais seguros para minimizar essas ocorrências, como acontece com os aviões, por exemplo. Um acidente de avião choca não só pela quantidade de vítimas, mas principalmente pela sua raridade - acidentes são tão raros que, quando acontecem, viram notícia e comovem a população. Todo acidente de avião é ostensivamente investigado, analisado e estudado. Isso ocorre não pela tentativa de encontrar culpados. O objetivo é aprender com os erros e evitar acidentes futuros. O mesmo deverá acontecer com os carros autônomos nos próximos anos.


O grande desafio para os fabricantes e operadores de carros autônomos não é apenas fazer um carro mais seguro que os que já temos. Essa parte é fácil: qualquer pessoa que dirige em uma grande cidade vivencia situações perigosíssimas no trânsito, a maior parte pela imprudência dos motoristas. Em um ambiente onde não há irresponsáveis, distraídos ou inconsequentes dirigindo, a tendência da segurança é aumentar. O desafio é descobrir qual será a taxa de acidentes que a sociedade está preparada para aceitar. 

Dados estatísticos simples conseguem explicitar com clareza a diferença de segurança entre viagens aéreas e terrestres: a Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA), em seu relatório de segurança, apontou uma média de 371 fatalidades por ano em acidentes aéreos um período de cinco anos.  A Organização Mundial de Saúde, por sua vez, apresentou o número de 1.25 milhões de fatalidades no trânsito por ano, número estável desde 2007. Os dados mostram que os automóveis matam quase 3400 vezes mais que os aviões se formos pensar em números absolutos. Analisando os números relativos, os carros também se mostram menos seguros: a Wikipedia, em seu artigo sobre segurança de voo, mostra que para cada bilhão de quilômetros rodados, há 3,1 mortes em acidentes de carro e 0,05 mortes em acidentes de avião, um número 62 vezes menor.

Analisando friamente os dados, podemos perceber que a sociedade está, de certa forma, confortável com o fato de que mais de um milhão de pessoas morram em acidentes de trânsito por ano. Qual será o número que a sociedade ficará confortável se pensarmos nos carros autônomos? Particularmente, estou disposto a viver em um mundo em que os acidentes ocorrem em taxas absurdamente mais baixas, mesmo que causados por máquinas. Imagine só se diminuirmos 1.25 milhão de mortes por ano causadas por humanos para 50 mortes causadas por máquinas? Parece bom? Será que as pessoas ficariam tranquilas? (É claro que para isso os carros autônomos devem chegar a esse patamar - e ainda não podemos afirmar se eles chegarão).

Para diminuir as taxas de acidente de um carro autônomo, é preciso que os processos de desenvolvimento de software e hardware sejam extremamente rígidos e regulamentados, como acontece nos aviões (recomendo a quem tiver curiosidade sobre o processo de desenvolvimento de software aeronáutico que assista a palestra que fiz na última Campus Party sobre o assunto). Com a evolução dos testes que ocorrem há anos, e com o aprendizado proveniente dessa fatalidade e de quaisquer outras que venham a acontecer, o software e o hardware serão cada vez mais seguro.

Naturalmente, ainda não temos dados o suficiente para afirmar que um carro autônomo é mais seguro que um humano dirigindo (Ou será que temos? Alguém sabe me dizer?). No entanto, o desenvolvimento tecnológico caminha na direção de torná-los cada vez mais seguros e não tenho dúvida que superarão os humanos facilmente.

Ano passado, em uma das minhas aulas na pós-graduação em Comunicação Social na UFMG, comentaram que estavam todos morrendo de medo dos carros autônomos. Ao ouvir isso, intervi: "Todos, não! Eu aguardo ansiosamente o dia em que poderei andar tranquilamente em um carro autônomo, sem precisar me preocupar em dirigir e sem ter medo dos motoristas irresponsáveis à minha volta". Sei que esse dia está chegando - e espero que seja logo.

Leitura complementar:
Máquina Moral, do MIT - http://moralmachine.mit.edu/hl/pt
Nesse site criado por um grupo de pesquisa do MIT, podemos tomar decisões morais que acreditamos que um carro autônomo deveria tomar em um dilema. O site compara suas respostas com as médias dos outros usuários.




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